
Teatro robótico
Uma estreia mundial
"Uma das cenas mais sofisticadas da peça
tem apenas dois robôs em cena dialogando"
Revista Veja
RUR, O Nascimento do Robô é a minha versão da peça de teatro R.U.R. (Rossum's Universal Robots) escrita por Karel Capek em 1920. A peça é um clássico da temática do conflito entre homens e máquinas inteligentes e foi nela que apareceu pela primeira vez a palavra Robot.
Na minha versão alterei significativamente a narrativa – pois os robôs têm um papel bastante mais ativo –, e a dissertação moralista é totalmente eliminada. Mas, mais importante e pela primeira vez, os robôs representam-se a si mesmo contracenando com os atores humanos. Três robôs, Babá, Primus e Helena, movem-se livremente no palco, representam, falam e interagem com os atores humanos de forma autónoma.
RUR, O Nascimento do Robô estreou em Agosto em São Paulo, Brasil, na sala do Itaú Cultural.

Robô Babá

Ser ou não ser RUR

O elenco de robôs da peça RUR
A origem
Foi na peça R.U.R. (Rossum's Universal Robots) de Karel Capek que surgiu pela primeira vez a palavra Robot. O termo, que em checo significa trabalho repetitivo, depressa destronou denominações mais antigas como autómatos ou androides, generalizando-se como designação corrente para as máquinas capazes de realizar, com algum grau de autonomia, vários tipos de operações.
RUR foi escrito no início do século XX, em 1920, como exemplo de um novo género literário e filosófico conhecido por distopia, ou utopia negativa, inaugurado pela Guerra dos Mundos de H.G.Wells e que mais tarde gerou obras tão importantes como o Nós de Zamiatin, o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley ou o 1984 de George Orwell.
Num cenário que antevê o Metropolis de Fritz Lang, RUR exprime um profundo desencanto pela evolução da sociedade humana marcada pela absurda e muito violenta I Guerra Mundial e pela ascensão das ideologias da intolerância e totalitarismo que em breve viriam a provocar os maiores horrores. RUR é por isso antes de tudo um alerta dirigido à humanidade, em que os robôs servem a demonstração de que a evolução científica e tecnológica, em si mesma, não basta para fazer uma sociedade mais justa e feliz e pelo contrário pode servir de motor às maiores barbaridades. É preciso ter em conta que na I Guerra Mundial a ciência assume um papel extremamente nocivo com a produção de novas armas altamente mortíferas e atrozes, em particular com as bombas químicas, mas igualmente com o desenvolvimento de novos inventos, desde os aviões aos tanques, criados com o fim exclusivo de matar o maior número e da mais desumana forma. O resto do século XX demonstraria aliás que essa aliança demente e contranatura entre cientistas e militares viria para ficar.
Os robôs em RUR representam neste sentido a própria alienação humana que não consegue já distinguir o mal do bem e que por vezes se aplica ativamente na construção de verdadeiros pesadelos dos quais, a partir de determinado momento, já não há regresso nem correção possível. Na peça de Capek o extermínio de toda a humanidade pelos robôs revoltados é assim o corolário inevitável dos próprios erros cometidos pelos humanos seus criadores.
A robótica surge portanto aqui como elemento simbólico e acessório de uma mensagem que claramente nos é destinada. Nesse sentido estes “atores/robôs” são secundários e objetivamente funcionais, não existindo na peça uma reflexão sobre o papel da robótica em si. O que não admira. Pois à época o robô dificilmente podia ser visto como mais do que uma simples máquina repetitiva, bruta pela sua falta de sensibilidade e desprovida das mais fundamentais características humanas como a consciência, a criatividade ou o amor. Mesmo assim no final, quando dois robôs –macho e fêmea –, se apaixonam dando origem a uma nova espécie, Capek termina de forma inesperada pelo seu positivismo.
O meu RUR
No meu projeto não se trata de tentar reproduzir, mais ou menos fielmente, a peça de teatro original de Karel Capek, mas antes de a tomar como fonte de inspiração para uma obra nova. A evolução dos tempos, das estéticas e da própria tecnologia, em particular a da robótica, assim o exigem. Daí, desde logo, a alteração relativa no nome da peça.
Embora mantendo uma estrutura dramática similar, a mesma divisão num prólogo e três atos e até muitas das características dos atores e da narrativa, duas importantes alterações devem ser consideradas.
A primeira diz respeito ao facto, inédito, de se colocar verdadeiros robôs no centro da representação. Ao invés dos habituais atores humanos travestidos de máquinas, tal como sempre foi feito em todas as anteriores representações desta peça, o meu projeto pretende colocar verdadeiras máquinas a desempenhar o seu próprio papel dramático.
A construção destes robôs/atores e não já de atores/robôs, os quais serão seguramente uma das fontes principais de atração do público, implica paralelamente uma verdadeira investigação que combina arte e ciência. Ou seja, o novo RUR não conterá simplesmente uma referência à ciência e sua evolução contemporânea, mas implicará em si mesmo um esforço de inovação tecnológica e científica, exigindo a colaboração ativa de ideias, cientistas e centros de investigação. Um tipo de parceria, aliás, que está já presente na maioria dos meus trabalhos mais recentes e que abre o caminho para o que antevejo ser a cultura do futuro.
Um segundo aspeto não menos inovador diz respeito à alteração significativa que pretendo introduzir no que pode ser considerado o centro dramático do texto original. Também aqui e em vez de manter o humano e os seus problemas no cerne exclusivo da trama, pretendo dar a palavra aos robôs e levá-los a exprimir aquilo que poderiam, e poderão no futuro vir a ser, algumas das suas preocupações próprias e respetivas consequências na previsível complexa relação entre homem e máquinas inteligentes. Ou seja, pretendo dar bastante relevo à perspetiva da máquina e construir a partir daí uma componente original da narrativa.
Este novo RUR pretende assim ser uma reflexão muito atualizada de algumas das questões que a ascensão das máquinas inteligentes inevitavelmente levantará num futuro cada vez mais próximo.
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arte [em] leonelmoura.com