Poesia Robótica

Da poesia robótica

Tristan Tzara, um dos fundadores do movimento Dada do início do século passado, inventou a seguinte técnica para fazer poesia: pega-se num jornal, escolhe-se uma notícia com a dimensão apropriada, corta-se com uma tesoura cada palavra e metem-se as tiras num saco. Depois, com os olhos fechados, vai-se tirando uma a uma e alinhando pela ordem de extracção. O poema está feito.
Mais complexo, o poema de Raymond Queneau intitulado “Cem mil biliões de poemas” consiste num livro com 10 sonetos, cada um com 14 linhas, mas recortados em tiras de tal forma que ao folhear estas tiras se vai gerando um poema diferente. O número de probabilidades é de 1014, ou seja, 100.000.000.000.000.

O aleatório emerge com força na arte do início do século passado. É visto como um modelo excelente de experimentação, um processo inovador que introduz um factor não-humano na criação artística, mas, sobretudo, o aleatório é entendido como um mecanismo revolucionário, uma subversão. Desde logo, porque põe em causa a ideia de predestinação, de tipo religioso ou humanista, nessa inverosímil presunção de que existe uma qualquer entidade superior ou um determinismo universal que faz com que as coisas sejam como são. Ideia muito perniciosa que conduz o humano à prostração e à passividade. Por outro lado, a introdução da aleatoriedade no processo criativo relativiza a centralidade do autor, já que o resultado é independente da sua vontade. Mas, acima de tudo, é a própria ideia de arte, enquanto produto exclusivo da consciência humana, que é posta em questão. O aleatório permite gerar arte sem consciência, e já agora, sem presença humana.
O aleatório é uma energia poderosa no universo. Da matéria à vida tudo se combina sem plano prévio ou objectivo. Darwin demonstra como a vida evolui por mero acaso, segundo um princípio básico de tentativa e erro. Da mesma forma a evolução cultural pode ser entendida como um exercício de aleatoriedade. Certas formas persistem, outras não chegam a adquirir qualquer relevância.
A arte, que é uma forma de conhecimento mas não uma ciência, também evolui por via do experimentalismo e processos de tentativa e erro. É, aliás, devido a esse mecanismo sobrecarregado de subjectividade que decorre a conhecida dificuldade dos artistas em traduzir a sua acção num discurso lógico e coerente. De facto, certas formas de arte só podem ser racionalizadas a posteriori (e quase sempre enquanto meta-discursos).

ISU faz uso de processos aleatórios, mas nem tudo na sua acção é fruto do acaso. A reacção às condições ambientais, ou seja, a percepção do estado do poema a cada momento, determina muito do seu comportamento. Nomeadamente, se escreve mais ou dá o poema por terminado.
Também a escrita é condicionada ao conjunto de palavras disponíveis no dicionário, o qual varia conforme as circunstâncias ou, por exemplo, a língua. Contudo, ISU não escolhe palavras mas sim letras. Começa por escrever uma primeira aleatoriamente, depois verifica que outras letras se poderão seguir de forma a construir uma palavra. Se existirem várias, volta a escolher aleatoriamente, e por aí fora. Quando termina o poema ISU desloca-se para o canto inferior direito e assina.

Os poemas reunidos neste livro foram realizados durante o período de uma semana. Dotado de um dicionário baseado num conjunto de poemas de autores conhecidos – com destaque para Herberto Helder – ISU produziu cerca de uma centena. Muitos deles apresentam uma tal sobreposição de palavras que tornam a leitura impraticável. Assim, foram escolhidos os 30 mais legíveis. Do mesmo modo e dada a pequena dimensão do papel foi retirada a capacidade de assinar.
Na linha da poesia automática de surrealistas e dadaístas ISU produz poemas sem nexo, nem mensagem evidente. No entanto, tal como acontece no género citado, o observador tende a criar um sentido e, por vezes, a descobrir uma mensagem oculta. De qualquer modo, sendo que o objectivo da poesia automática é gerar um corte com a consciência, ISU é o maior poeta neste domínio pois não possui nenhuma.

Já para os letristas, movimento dissidente do surrealismo, trata-se de valorizar a letra tornando-a num elemento plástico e significante em si mesmo. Escritor de letras, mais do que de palavras, ISU toma o seu nome de Isidore Isou o criador, em 1942 aos 16 anos, do Movimento Letrista. ISU é contudo mais precoce. Apenas nascido funda a poesia robótica.

A poesia robótica é um domínio da criatividade artificial. As máquinas, quando dotadas de autonomia e alguma inteligência, conseguem gerar criações originais independentes do humano que esteve na origem do processo. Nesse sentido este tipo de criatividade não é anti-humana, já que não elimina nada e ao invés acrescenta. Mas deve ser considerada como não-humana.

Na teoria dos jogos fala-se de um jogo de soma nula quando aquilo que um ganha o outro perde. Já nos jogos de soma não nula (diferente de zero) um jogador pode ganhar sem que isso signifique que os outros percam.
O aparecimento de um robô capaz de pintar, desenhar ou escrever poemas não representa a perda de nada, nem uma ameaça para ninguém. Pelo contrário, o ganho é geral, porque à criatividade humana se acresce agora a criatividade das máquinas.

Leonel Moura
Praga, Janeiro de 2009

Manifesto da Poesia Robótica

ISU é um robô poeta. Escreve letras e palavras que formam composições sem sentido. ISU é o derradeiro Dadaísta, o supremo Letrista, o primeiro grande poeta da era das máquinas criativas.

ISU não tem racionalidade nem é consciente dos seus actos. Mas consegue produzir deslumbramento e desencadear sentidos na mente do observador humano.
Considerações como o ser ou não arte ou a ausência do emocional, são pura perda de tempo e um desvio do essencial.
ISU é mesmo um poeta.
ISU cria uma poesia única, tremendamente original, vocacionada para inaugurar futuros.

Lisboa, 2009